Coisas de índio
©

Período Pré Cabralino

Antes de darem os primeiros passos em terras brasileiras, os portugueses não imaginavam que naquela “nova” terra já existiam cerca de dois milhões de indígenas.

Após terem seus primeiros contatos com os povos nativos, os europeus conceberam a errônea ideia de uma uniformidade cultural existente entre os índios. Na verdade, as sociedades indígenas existentes no Brasil Pré-Cabralino eram relativamente complexas, apresentando significativas características próprias. O grande número de línguas e dialetos era uma prova da singularidade de cada grupo étnico.

Dentre todos os povos indígenas que habitaram o Brasil de norte a sul, podemos destacar os grupos Pataxó, Nambikwara, Macro-jê e Aruaque. Contudo, os tupis formaram, sem dúvida, o maior grupo indígena da época pré-descobrimento. Suas tribos iam desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul. A contribuição específica deste grupo foi de grande importância para a formação da cultura brasileira. Sua grande influência em nosso idioma é um exemplo vivo disto. Sem contar as contribuições no que se refere à alimentação, religião e folclore do povo brasileiro.

A Ilha de Marajó foi habitada por vários povos desde, provavelmente, 1100 a.C. De acordo com os progressos obtidos, esses povos foram divididos em cinco fases arqueológicas. A fase Marajoara é a quarta na sequência de ocupação, mas é sem dúvida a que apresenta as criações mais interessantes.

   Fase Marajoara

A produção mais característica desses povos foi a cerâmica. Ela pode ser dividida entre vasos de uso doméstico e cerimoniais e vasos funerários. Os vasos de uso doméstico serviam apenas para guardar mantimentos. Eram simples e não apresentavam decorações em sua superfície. Já os vasos cerimoniais possuem uma decoração elaborada, resultante da pintura bicromática ou policromática (com duas ou várias cores)  de desenhos feitos com incisões (sulcos) na cerâmica e de desenhos em relevo e o vasos funerários, também chamados de igaçabas, eram urnas mortuárias decoradas com desenhos labirínticos.

Além da cerâmica, os marajoaras produziam bancos, colheres, apitos, adornos para orelha e lábios e estatuetas humanas, que chamam a atenção por serem pouco realistas e mais estilizadas, ou seja, sem preocupação com a fidelidade à realidade. Até hoje se discute a função dessas obras, se eram decorativas ou cerimoniais. Essa fase acabou bem antes da expedição cabralina, em 1350 já estava em declínio por uma fusão ou expulsão de povos que chegaram àquela região.

Cerâmica marajoara

 Cultura Santarém

Não existem estudos dividindo em fases culturais os povos que ao longo do tempo habitaram a região próxima à junção do Rio Tapajós com o Amazonas, como foi feito em relação aos povos que ocuparam a Ilha de Marajó. Todos os vestígios culturais encontrados ali foram considerados como realização de um complexo cultural denominado “cultura Santarém”.

A cerâmica apresenta representações de humanos ou animais em relevo. Outra característica é o realismo da representação do homem e do animal. Um dos recursos ornamentais da cerâmica santarena que mais chama a atenção é a presença de cariátides, isto é, figuras humanas que apoiam a parte superior do vaso.

Além de vasos, a cultura Santarém produziu ainda cachimbos, cuja decoração por vezes já sugere a influência dos primeiros colonizadores europeus, e estatuetas de formas variadas. Diferentemente das estatuetas marajoaras, as da cultura Santarém apresentam maior realismo, pois reproduzem mais fielmente os seres humanos ou animais que representam.

A cerâmica santarena refinadamente decorada com elementos em relevo perdurou até a chegada dos colonizadores portugueses. Mas, por volta do século XVII, os povos que a realizavam foram perdendo suas peculiaridades culturais e sua produção acabou por desaparecer.

Cerâmica santarena

Arte indígena Pré Cabralina

Arte indígena depois da chegada dos portugueses

Embora tenham existido diversas culturas indígenas, hoje podemos citar a de dois povos que se sobressaíram, a dos silvícolas, que vivem nas áreas florestais, e a dos campineiros, que vivem nos cerrados e nas savanas.

 

Os silvícolas praticam uma agricultura desenvolvida e diversificada que, associada às atividades de caça e pesca, permite que tenham moradia fixa. Suas atividades de produção de objetos para uso da comunidade também são diversificadas. São elas: a cerâmica, a tecelagem, o trançado de cestos e balaios, entre outras.

 

Os campineiros têm uma cultura menos complexa e uma agricultura menos variada. Seus artefatos comunitários são menos diversificados, mas seus cestos e esteiras estão entre os mais cuidadosamente trançados entre os indígenas.

 

Tanto um grupo como o outro conta com uma ampla variedade de elementos naturais como matéria-prima para seus objetos tais como: madeiras, cortiças, fibras, palmas, palhas, cipós, sementes, cocos, resinas, couros, ossos, dentes, conchas, garras e belíssimas plumas das mais diversas aves. As possibilidades de criação de objetos indígenas são muito amplas.

 

O empenho indígena em atingir a perfeição ao se fazer objetos utilitários, para uso na vida comunitária, pode ser apreciado principalmente na cerâmica, no trançado e na tecelagem. Mas, além dessa produção, duas expressões da arte indígena merecem destaque: a arte plumária e a pintura corporal.

  Cerâmica

 

As peças de cerâmica que se conservaram testemunham muitos costumes dos diferentes povos indígenas e uma linguagem artística que ainda nos impressiona. São assim, por exemplo, as urnas funerárias lavradas e pintadas de Marajó, a cerâmica decorada com desenhos impressos por incisão dos Kadiwéu, as panelas zoomórficas dos Waurá e as bonecas de cerâmica dos Karajá.

⇢ Tecelagem e trançado

A partir de matérias primas em grandes quantidades, como folhas, palmas, cipós, talas e fibras, os índios produzem uma grande variedade de cestos, abanos e redes .Da arte de trançar e tecer, são destacadas especialmente algumas realizações indígenas como as vestimentas e as máscaras de entrecasca, feitas pelos Tukuna e primorosamente pintadas, as admiráveis redes ou maqueiras de fibra de tucum do Rio Negro e as belíssimas vestes de algodão dos Paresi que também só podem ser vistas nos museus.

Tecelagem e trançado

⇢ Arte plumária

Esta é uma arte muito especial porque não está associada a nenhum fim utilitário, mas apenas à pura busca da beleza.

Existem dois grandes estilos na criação das peças de plumas dos índios brasileiros. As tribos dos cerrados fazem trabalhos majestosos e grandes, como os diademas dos índios Bororo ou os adornos de corpo, dos Kayapó. Já as tribos silvícolas como a dos Munduruku e dos Kaapor procuram fazer peças mais delicadas, sobre faixas de tecidos de algodão. Neste caso, a maior preocupação é com o colorido e com as combinações. As penas geralmente são sobrepostas em camadas, como nas asas dos pássaros. 


theme: cerejadosundae. +
»